Citação

Procrastinação em Pessoa…

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ADIAMENTO

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…

Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,

E assim será possível; mas hoje não…

Não, hoje nada; hoje não posso.

A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,

O sono da minha vida real, intercalado,

O cansaço antecipado e infinito,

Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico…

Esta espécie de alma…

Só depois de amanhã…

Hoje quero preparar-me,

Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…

Ele é que é decisivo.

Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…

Amanhã é o dia dos planos.

Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;

Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…

Tenho vontade de chorar,

Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.

Só depois de amanhã…

Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.

Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…

Depois de amanhã serei outro,

A minha vida triunfar-se-á,

Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático

Serão convocadas por um edital…

Mas por um edital de amanhã…

Hoje quero dormir, redigirei amanhã…

Por hoje qual é o espectáculo que me repetiria a infância?

Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,

Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo…

Antes, não…

Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.

Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.

Só depois de amanhã…

Tenho sono como o frio de um cão vadio.

Tenho muito sono.

Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…

Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…

Sim, o porvir…

14-4-1928

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). – 266.

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À flor da pele…

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Ponderavas ? Assumirias sem temor? Terias orgulho ?

Andarias por becos escuros e ermos? Serias espectro solitário? Fugitivo?

Serias poesia, sonho, fantasia?

Revolução, manisfestação, mudança?

Dignidade, honra, integridade?

Ou, ainda assim, serias somente um ser de corpo desprovido de adorno, vazio de mensagem, isento de palavra, à excepção do “politicamente correto”?

Não se ama alguém que não ouve a mesma “canção”?

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O título diz tudo. Ou talvez não. O termo “canção” entre aspas é intencional. Porque por “canção” se quer definir muito mais do que um estilo ou uma selecção de vários estilos que eventualmente nos “toquem” o coração…em uníssono.

Por “canção” pretende-se definir a banda sonora da vida.

Música ou melodia essa que raramente se compõe a solo nos verdes anos. Anos esses em que ainda não sabe bem distinguir um ” accelerando” de um ” adagio” ou um ” affetto” de um “crescendo”.

Eu gosto particularmente de crescendos. Desde sempre. De melodias em modo “infinito” ( como lhes costumava chamar há umas décadas, antes de alguém me ter ensinado o termo correcto) que me conduzam a um qualquer zénite de emoção.

A mesma “canção” é muito mais do que o mimetismo dos recitais de outra pessoa. Do aprender a gostar por afeição. Do “mix” dos géneros. A magia e o prazer de ouvir música na sua forma literal é no entanto similar ao encanto de se descobrir uma sintonia e uma afinação com outro(s) ser(es)  humano(s).

O termo “não se ama” também tem um sentido lacto. Diria mesmo incondicional ou até absoluto.

Há quem escute música clássica. Porque é metódica. Porque tem uma harmonia quase matemática. Porque dispensa palavras.

Há quem prefira a eterna “Pop”, descontraída e “isenta” de maior significado lírico ou erudito. Passam-se anos a escutar canções… muitas vezes sem sequer decifrar “a letra”.

Eu, durante muitos anos, dei preferência a muitos géneros e sem limites. Mas a inclinação era sempre para letras introspectivas. Sentia necessidade de dissecar letras e identificar estados de espírito.

No entanto, a certa altura, entrei numa fase mais “zen” e regressei à simplicidade e aos sons da natureza da minha infância. Comecei a entender que música para mim era e será sempre uma terapia, um segundo oxigénio, a alimentar sentidos, tão somente.

À falta de música saída das mãos ou boca dos homens haverá sempre o vento a soprar numa chaminé, gotas de chuva num telhado, um riacho a correr na Primavera ou as ondas intermináveis do mar.

Sim…tudo isto pode ser considerado uma analogia.

É muito mais do que o som a pairar no éter.

Os estilos são pessoas. E não existem duas pessoas iguais. Mas existem essências de pessoas muito próximas da geminação.

Pela frequência rara que emitem. E na qual só alguns se captam, cativam, reconhecem.

Encontrar no caminho pessoas que ouvem a mesma canção não significa que tenham de picar uma lista infindável e duplicada de discos, livros, filmes, raízes, filosofias, ideologias ou até traumas, arrependimentos, lições de vida.

Mas habitualmente há um reconhecimento no olhar. No olhar perante a Vida e o Mundo. E na coincidência do recíproco, em tempo e, quem sabe numa forma idealista e invulgar, em espaço.

E acontece. Nas pequenas coisas.

E nascem amizades e nascem amores. Incondicionais. Intemporais. Desapegados.

O Carlos Tê quando escreveu para o Rui Veloso nunca lhe passaria com certeza pela cabeça que isto ia dar tanta filosofia e dissertação.   Mas desconfio que foram, ingenuamente responsáveis por muitas tentativas inevitáveis e ritualistas por parte de uma geração de escolher as pessoas pelas músicas que escutam, na tentativa de facilitar comunicações e empatias. Quem nunca teve uma fase de vida em que se tornou seletivo? Eu confesso que já o fiz. Não de forma discriminatória. Mas como em extra. Bónus. Referência. Uma mera tentativa de quase rotular um ser em função disso. Pior. Quando se simpatiza ou empatiza com alguém, até damos por nós a explorar novos sons porque música é contágio.

Sim…estou mais uma vez a usar analogias.

Porque existem pessoas que se mantêm fieis à sua essência e o facto de “ouvirem a mesma música” de outras não as faz anularem-se como seres. Já outras…tornam-se peritos em homocromia e desaparecem, diluem-se totalmente na coloração do outro. E isso não é nem amor nem amizade. É obsessão, vício, idolatria, veneração…arrisco até a chamar-lhe fanatismo.

A melomania pelas pessoas torna tóxica a partilha.

Ouvir a mesma canção implica transparência, confiança, aceitação, respeito.

Escutar verdadeiramente provoca espontaneidade, prazer, sorrisos. Amplia sensibilidades. Viaja-se. Medita-se.

Quem escuta a mesma canção nunca está só.

Há um fio invisível que conecta entes. Fio esse responsável pelo tom de viver. Não importam tanto os valores e ambições. Crenças e descrenças. É um tom de liberdade. Um tom de sonho. Uma mesma tonalidade de céu. Uma mesma mat(r)iz de Alma.

Por mais surrealista que isto possa parecer, sim, existem seres humanos para os quais isto é importante, muito mais do que a política, a situação económica do país, os resultados futebolísticos, a novela da noite, o concurso da hora de jantar, a nova colecção Primavera/Verão, o último modelo de carro da marca predilecta.

É claro que as pessoas mudam e coleccionam gostos e interesses e manias, mais ou menos materialistas.

Há quem nunca chegue a fazer a “playlist” da sua vida. E há quem seleccione  cada vez com mais critério que canções quer manter na sua vida em modo “repeat”.

Porque nos bons e maus momentos, são essas as “canções” que nos inspiram. Uma para cada momento em particular. Para ter ao nosso lado como portos de abrigo.

Eu já não tenho idade para “Shuffles”

Cada vez mais aprecio um bom concerto mas, no regresso a “casa”, não tenho mais paciência para “rewinds” ou “FastForwards”.

Eternamente enquanto dure ( como diria Vinicius) em modo “Play”, enquanto a vida não se encarregar de pressionar no  “Stop” ou no “Pause”!

🙂

Nota importante: POP como analogia do universo adolescente,no sentido de música “ligeira”, “comercial”, direccionada para o público juvenil, idade em que não se tem ainda maturidade para apreciar certos conteúdos.

Popular/ Tradicional  é um conceito muito mais abrangente e sério,  que merece todo o meu respeito.

http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%BAsica_popular

 

 

A minha gaiola é melhor do que a tua!?

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Aprender com os próprios erros é, sem dúvida, uma maneira “agridoce” de crescer, evoluir, ler nas linhas e entrelinhas da vida.

Aquela que muitas vezes ( senão sempre) só faz sentido para nós.

Por vezes esquecemos isso e esperamos que os outros nos entendam. Queremos, não sendo totalmente transparentes, que os outros nos vejam com transparência.

Queremos, não sendo julgados, que nos aceitem ( quando isso na realidade não deveria ser uma necessidade).

E, por vezes, depressa nos esquecemos ( por mais sensíveis e iluminados que sejamos) que também não devemos julgar, que cada pessoa é um mundo e infinitas as razões e complexidades para alguém ser como é.

Ou como foi e agora já não é.

Ou como sempre foi e nunca revelou.

Ou ainda… como sabe que quer ser mas vive engaiolado no que a vida o habituou a ser. E luta e anseia por quebrar barras e amarras, por transbordar asas numa liberdade que afinal sempre foi e sempre será somente sua.

Ainda que SER lhe custe quase um “vender de alma”.

Quando estamos nós próprios em inquietação ou em balanço, tudo nos brilha a “nós” e brilhamos em tudo, qual Sol no centro do Universo.

Ampliamos a existência, cegamos a sensatez, caminhamos com o Ego preso numa bandeira. E menosprezamos muitas vezes o Sol dos que nos rodeiam. Aparecem-nos “néons” fosforescentes a piscar-nos à frente dos olhos, a apontar este ou aquele  comportamento, este ou aquela cobrança, a mostrar-nos constantemente o relógio opressor:

– “Tens de ser perfeito.”

-“Tens de ter sucesso.”

– “Tens de casar e ter filhos.”

– “Tens de deixar de ser infantil.”

– “Tens de arriscar.”

– “Tens de perdoar.”

– ” Tens de esquecer.”

E, nessas alturas, as pessoas que mais nos incomodam são aquelas que nos fazem precisamente lembrar de quem somos. E os nossos erros. A nossa passividade. Os nossos defeitos.

E quantas vezes nos afastamos, preferindo esconder-nos na nossa carapaça, como caranguejos eremitas?

Pessoas como meros reflexos do que não ousamos admitir, da nossa negação.

Irrita-nos a nossa deformidade espelhado no outro. Porque lutamos contra ela numa louca auto-exigencia de Ser Melhor.

Ou talvez de, pelo contrário, parar de ser “melhor aos olhos dos outros” e começar a ser fiel ao EU. Parar de contrariar instintos, intuições, ansejos em troca de uma prostituição “social” que faz de nós seres a tracejado…

Irónico…então porque não encontramos dentro de nós suficiente compreensão ou tolerância para aceitar noutra pessoa aquilo que em nós mal suportamos?

Há já uns bons anos que digo ( às vezes até tento explicar, muitas vezes sem sucesso) que parte das minhas lições coleccionei-as a partir da experiência dos outros. Que sou uma Observadora. Que nada substitui sentir na pele o pulsar da vida mas que é quase tão importante também ter a humildade de nos colocarmos no lugar dos outros. Entender por que caminhos e abismos andaram esses pés. Que monstros escondem no armário. E, ao invés de olhar de cima, olhar de frente, ao mesmo nível. Entender e , acima de tudo, aprender.

Não é fácil. Exige até uma certa gestão emocional. Lembrar sistematicamente de ver sempre o lado positivo do negativo. Respeitar e não julgar. Reciclar, relativizar, apurar e ficar só com o ensinamento.

Imaginar as dores dos outros ( por afinidade ou sensibilidade) não é tarefa fácil. Exige quase dotes de adivinhação sobrehumana. Especialmente quando, tal como nós, as pessoas tendem a negar e manter a máscara do “está tudo bem”.

Como? Nunca está tudo sempre bem! Respeitar silencios é o mais difícil. Mas consegue-se. Na base da tentativa e erro. Da  antecipação de padrões e comportamentos. Na conquista da confiança.

E lembrar que , sejam as pessoas íntimas ou estranhas, é sempre uma bênção conhece-las como seres. Não importam se marcam muito ou pouco a nossa vida. Se são passado ou presente ou ainda futuro.

Gratidão de ter interagido com elas, por minutos, horas, dias, semanas… é curioso como às vezes a vida nos quer fazer avançar para outra maneira de a olhar e, para tal, usa uma espécie de mecanismo de emergência. Aprende-se às vezes com uma conversa de horas o mesmo do que em anos de convívio.

Às vezes algo aparentemente insignificante para “o outro” revela-se tão claro e certo como uma epifania que só nos resta guardar essa espécie de “medalha” fulminante só para nós pois, explicando, nem mesmo esse outro que foi o veículo e entenderia.

Porque o seu mundo permaneceu igual.

Quem mudou fomos nós.

As pessoas tocam-nos e tocamos as pessoas sem nos apercebermos. E isso…é uma grande responsabilidade. Tanto como é prodígio.

Não só com a família, não só com amigos, com colegas…é grande com qualquer estranho que por um tempo incerto e por razões que nem vale a pena tentarmos explicar de forma lógica e racional, nos entram pela porta de casa ou encontramos numa rua qualquer do nosso quotidiano ou até num desses “mundos virtuais” que parece terem vindo para nos afastar e individualizar ao invés de aproximar.

Por isso é tão importante estar de olhos sempre abertos. Ver mais além. Perceber que há sempre uma razão para alguém ou algo se cruzar no nosso caminho. É uma questão de perspectiva. Nada tem somente uma única explicação. Até as definições dos dicionários sofrem revisões e acréscimos. Actualizações. Como na vida. Não interessa a definição que tínhamos como verdadeira e definitiva aos oito ou aos dezasseis ou aos vinte e três ou aos trinta e cinco anos de idade. Interessa é não ter medo de actualizar o nosso olhar e perder o receio de mudar. Admitir que a opinião, postura, atitude muda-se a cada dia que passa. E isso não é ser incoerente. Isso é saber mais hoje do que ontem e menos do que amanhã.

Aceitemos cada pessoa como é. Na sua essência. Não pressionemos. Mas deixemo-la saber que pode contar connosco. Mesmo que ela, incrédula, não acredite que possamos dar sem querer algo em troca. Ou melhor, que a única coisa que vamos ter em troca é um sentimento gratificante e isso basta.

Não fiquemos colados a estereótipos. A manias de superioridade. A descriminações. É difícil porque vivemos em sociedade? É, de facto, mas somos ainda seres pensantes e sensíveis ou já nos convertemos todos ao “andróidismo”?

Não comparemos constantemente tudo e todos connosco ou com o nosso percurso de vida. Há que deixar sempre uma margem, um espaço para respirar. Cada um tem as suas razões para ser mais ou menos “livre” do que nós. E tem o seu direito à diferença o que não significa pertencer a uma “casta” rotulada de INdiferença ou DEformação. Todos nós somos mais ou menos corajosos, ambiciosos, egoístas, materialistas, solitários, promíscuos, arrogantes, “sortudos”…

Sim… não foi por acaso que deixei o “sortudo” para último! Ninguém nasce por magia com o “traseiro virado para a Lua” como se costuma dizer. Mas há esta tendência intrínseca e masoquista de achar que os outros vivem melhor que nós, que têm mais amor, mais abundância, mais reconhecimento…

Como se fossemos filhos de um “Deus menor”. Que nos abandonou ou esqueceu ou nos deixou em “stand by”. A verdade é que não importa se é uma ilusão. Podemos até conhecer alguém com um nível de felicidade extraordinário. Nesse caso devemos aproveitar. As pessoas felizes são altruístas. Querem partilhar. Querem dividir com os outros o que lhes vai na alma porque a alma feliz pula e ri e é possuída por um encantamento contagioso. Eis a principal diferença entre estas e os meros exibicionistas. E temos de ficar também felizes por essa conquista. Felizes pelo outro. Sem nenhum tipo de inveja mesquinha que alguns insistem em sentir ( e que funciona como veneno para o próprio corpo), como vampiros a sugar a alegria alheia, cuspindo sentenças e criticando aquilo que cai fora da sua zona de conforto e toca bem no centro da sua ferida. Esse incómodo que é não conseguir que todos sofram da mesma infelicidade, como quem( por revolta) espalha um vírus anónimo e fatal.

Sofremos! De uma forma ou de outra sofremos porque a própria energia negativa por si só é viral. A maneira como convivemos com isto, como somos mais ou menos imunes e como nos auto-curamos é que faz toda a diferença. Portanto… não queiramos que choremos todos o mesmo fado, por solidariedade. Não tentemos destruir o que os outros alcançaram. Não nos achemos donos da verdade, tentemos dar o melhor de nós mas aceitemos a rejeição de quem ( ainda) não nos possa ver como um apoio, um amigo, um companheiro de viagem.

Existe, mais tarde ou mais cedo, uma predisposição, uma altura certa para tudo e muitas vezes o que é cura para nós é tóxico para o outro. Às vezes não procuramos dissecar a ferida porque ela ainda dói muito. Façamos mais vezes silencio e companhia. Não tenhamos medo de ser Humanos. Não nos reduz ou enfraquece. Escutemos desabafos, alegrias e tristezas, entusiasmos e euforias com o coração aberto e sem filtros. Tenhamos a capacidade de rir e chorar, de dar um abraço ou um beijo. De dizer ” gosto muito de ti” ou ” gosto de ti exactamente como és” ou ” eu não sei o que dizer, mas entendo e estou aqui para o que der e vier” ou um simples “fico feliz por ti”. Sinceros. Autênticos. Com empatia. Empatia é muito diferente de simpatia. Quando a vossa boca fugir para um ” isso não é nada, havias de ver o que me aconteceu” ou um ” comigo foi ainda pior”…parem! Travem. Não sejam amargos. Não é uma competição. Adquiram a capacidade de rir e abstrair quando “a galinha da vizinha é mais gorda…” porque podem ser … hormonas!

Aquele casal que conhecem e que vive luxuosamente e parece que tudo lhe “cai do céu”? Pode já ter perdido outro tanto na vida. E ter conseguido reerguer-se. Ou pode estar cheio de dívidas enquanto toda a gente lhe inveja o sucesso. Pode matar-se a trabalhar e não ter vida própria e tempo de qualidade. Pode entupir-se de objectos e luxos e animais de estimação para preencher o vazio de nunca ter tido um filho…

Aquela rapariga bem disposta que é vossa colega de trabalho e que diz que ama a vida, pode estar verdadeiramente apaixonada, após dezenas de decepções ou amores não correspondidos, pode ter ultrapassado uma doença complicada, pode estar em fase de negação e a tentar inventar-se, mentindo a si própria, vivendo num mundo irreal até ao dia em que tiver coragem de enfrentar tudo.

Aquela vizinha auto-suficiente e independente que afirma não precisar de ninguém, que não tem companheiro nem planeia ter, que diz jamais casar e que tem muito orgulho nisso; pode ter vivido anos numa espécie de cativeiro, a partilhar tempo e espaço com “alguém que não ouvia a mesma canção”, abdicado de liberdade e de sonhos ou com alguém que a mal tratou,  pode ter perdido um filho, pode ter tido um/a amante casado/a que, durante anos lhe prometeu o impossível, alimentando  o coração de  ilusão e adiando-lhe a própria vida.

No meio dessa multidão existem ou podem de facto existir as tais “pessoas felizes”. Mesmo felizes.

Porque não?

Aprendam com todos. Recebam. Recolham histórias reais e exemplos dos caminhos que se cruzam nas vossas encruzilhadas.

Deixem entrar vida na vossa vida.

Porque não transformar cicatrizes em tatuagens e pintá-las com as nossas melhores cores.

As que nós escolhemos, com total liberdade?

E admirar as dos outros. Sem cinismos. Sem ódio. Sem contrapartidas. Sem expectativas. com Igualdade.

Viver e deixar viver.

 

Estado

Sobre o Rosa Etéreo

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O Rosa Etéreo surge da necessidade de expressão das diversas camadas de um Ser.

Um Ser Humano e um Ser Mulher.

Blogueira “experimental” há mais de uma década, muitas foram as tentativas de exteriorização, todas elas de acordo com o estado de espírito e maturidade até então atingida.

Em muitas delas acreditei possuir certezas, com base nas minhas vivências.

É curioso como tantas vezes se volta a um lugar comum, a um porto de abrigo, a uma paisagem, a um Céu estrelado e tudo permanece imutável…excepto nós. E é nesse preciso lugar que fazemos balanços e notamos as nossas ténues ou abismais diferenças. Somos os mesmos e no entanto tão diferentes porque o caminho andado desde a última paragem nos afinou, aguçou, poliu.

É sempre bom voltar a nós, vezes sem conta.

A uma memória feliz de infância, a uma primavera, a uma conquista, a uma metamorfose.

Que mais é a vida senão um “patchwork” de experiências, um puzzle de ensinamentos que vamos encaixando, uma “cocktail” de conhecimento.

A vida não pára.

Tudo nela é movimento, mesmo quando não nos apercebemos no imediato.

É essa a percepção a que se chega aos 40.

E este é o momento em que há equilíbrio para uma expressão mais significante.

A serena constatação de que, tanto dúvidas como certezas, tanto medos como coragens, tanto alegrias como tristezas são meras nuvens fugazes.

O importante é que estejamos conscientes do efeito destas sobre o nosso Céu / Ser.

De branco incólume ou cinza soturno, eis que encobrem Sóis para que apreciemos mais tarde a Luz que retorna quando se dissipam.

Eis que chovem tormentas que nos fazem recolher num alvéolo para, mais tarde, realizar que é precisamente essa bátega que nos purifica e ensina a distinguir o essencial do supérfluo.

Nuvens outras que, para nosso espanto, enaltecem momentos de felicidade ou mera mansidão.

E tudo o que nos apetece é escancarar braços e agradecer. Acreditar. E vislumbrar que é o momento que importa e que o devemos degustar intensamente, como se não existisse amanhã.

É costume dizer-se que a felicidade não se questiona, abraça-se!

Não percamos tempo a analisar quando ela assoma, mesmo que apenas por minutos.

Porque ela é célere. É bicho-do-mato arisco e zopeiro, bipolar mesmo, que tanto deseja ser amansado como em seguida se esgueira, em fuga para o covil.

A vida cisma-se mas, acima de tudo, traga-se.

Com todos os sentidos. Sem medos. Sem “mas”. Sem “e ses…”. Sem egoísmos e possessões. Sem apegos. Agarrar a simplicidade das pequenas coisas enquanto existem e estão ao alcance da nossa mão. Depois…haverá tempo para memórias, dissertações, retornos, nostalgias.

Pintar as nuvens do nosso Céu com as nossas cores. Sempre.

Mesmo que nos chamem loucos. Nos julguem. Somos responsáveis pelo que somos, com todas as nossas qualidades e defeitos. Não há ninguém que tenha de nos aceitar mais do que nós.

Essa é uma das causas da minha labuta. Pelo assumir dos nossos sonhos, sorrisos e desassossegos. E direitos e liberdades. Por mim, por todos os que me rodeiam, no dia-a-dia. E quem sabe, de forma mais ambiciosa ou até utópica, em nome dos meros desconhecidos, humanos que somos, todos conectados de uma forma fantástica e intrigante. Tivera eu mais formas de o colocar em prática.

Não interessa se luto contra moinhos. Sinto necessidade do contágio e da partilha. Talvez a minha arma seja medíocre. Meras palavras. Meras opiniões e filosofias. Mas é o engenho de que disponho. Em pleno respeito e aceitação por quaisquer outras liberdades dos meus semelhantes.

Nos “agoras anteriores” em que me aventurei pela Palavra, muitos foram os existencialismos que dissequei.

Estados de Alma em forma de questões gritadas ao Mundo.

A diferença é que hoje não espero que a resposta venha do exterior. Agora sou consciente de que o retorno vem de mim.

Bastou render-me à Vida e aceitar.

Aceitar que o caminho é longo mas, ao fim do dia, há calmaria e um sorriso.

Que não somos perfeitos, mas podemos ser melhores.

Que errar faz parte de ser humano assim como acertar.

Que mudar de opinião é saudável.

Que nada é imutável.

Que tudo é questionável e relativo.

Que nada é impossível, excepto aquilo que o é porque tem de ser. Como oposto ao possível.

Porque a vida é isso: Dualidade.

E a (in)sanidade é uma dança arriscada no trapézio, um desafio ao equilíbrio.

Tudo o que publicarei será um reflexo de mim e de todos. De maneiras de olhar a multidão e o cenário lá fora. E horizontes. E mais além…

De forma mais aligeirada ou mais dissertiva, exalar opiniões e estados de espírito. Fruindo a vida, com a transparência que me for permitida. E filosofá-la, questioná-la, poetizá-la.

Não pretendo autobiografias. Mas as causas, essas sim, por mais água que passe debaixo da ponte e folhas de calendário que se arranquem, permanecerão na minha essência porque me definem como Pessoa.

Porque é muita a complexidade e policromia de cada pessoa. E é importante que se explorem. Porque é um desperdício não o fazer.

Porque as palavras existem para se espalhar ao vento…parto para esta nova sementeira.

Obrigada a todos, em especial aos amigos, que me incentivam incansavelmente.

É a vós que devo muito de quem sou como Gente. É essa partilha intensa e diária que me abre universos paralelos de realidade e fantasia.

A Amizade é provavelmente a maior forma de Amor Incondicional que conheço .

Bem-vindos!

Cid

( aguarelista ao serviço das matizes de Rosa Etéreo)